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Kafka e o mal-estar em O processo

Na minha experiência, ler Kafka é sempre intenso. Num sentido que é difícil suportar a leitura por muito tempo. há os que desistem, há os que leem rápido, eu geralmente me encaixo no segundo grupo. Ainda há muito o que ler de Kafka, mas já tive contato com as obras: carta ao pai, a metamorfose, o castelo, carta a milena, que são de uma dureza, uma densidade brilhante...


o processo, alguns meses se passaram até que eu terminasse a leitura... e achei curioso esse movimento acompanhar um pouco o enredo que certamente é propositalmente confuso, gerando no leitor algo como um desamparo, desconforto..


Kafka não terminou O processo em vida. Supostamente, escreveu o primeiro e último capítulo e foi preenchendo as lacunas com capítulos que foram separados em cartas. Seu amigo Max Brod ficou responsável de queimar os escritos de Kafka, pedido feito no seu testamento. Mas o amigo, felizmente aposta em Kafka, organiza suas cartas como achou que deveria e se torna então o primeiro editor das obras do autor.


A ordem dos capítulos abriu uma discussão acadêmica a respeito de quais seriam as outras possibilidades de organização desses capítulos, assim como a escolha do final proposto por Brod.


Quanto ao enredo, o protagonista K. é acusado de um crime por um tribunal um pouco estranho, que hora parece se encaixar num governo estatal, hora não, envolvendo-se tanto em nível privado quanto o público em sua investigação. Nas primeiras páginas, numa cena clássica do séc XX, K. acorda com os policiais já no seu quarto e percebe que os vizinhos os assistem, ou seja, desde o começo o processo se dá diante de um público.


Na época, Kafka parece ter acompanhado um caso público de antissemitismo, o caso Dreyfus. A maneira como os cidadãos foram tratados por serem de origem judaica levou a justica e o direito a uma desconfiança que sem dúvida ultrapassa barreiras dos limites privados, beirando ou até chegando a violência.


K. à principio entende o processo apenas como uma investigação, e dada a sua inocência, pouco se preocupa e apenas espera que a situação se resolva sozinha. Infelizmente, não é bem por aí que as coisas caminham. Num processo público, as pessoas passam a ter acesso a muitos detalhes da intimidade desse sujeito, onde dormem, o que comem, o que fazem na rotina.


Na narrativa, acompanhamos K., ao perceber que sua situação era perigosa, tendo contato com um camponês e um comerciante, que ao tentar lutar para acessar a lei, ou seja, a possibilidade de questionar e abdicar da proteção de seus direitos, eram barrados pelo porteiro, pelas incontingências e dificuldades criadas em meio ao processo, deixando-os constantemente de mãos atadas.


Acompanhar K. me lembrou um tanto a obra O estrangeiro de Camus, onde o protagonista é preso, julgado e sentenciado a morte e, em suma, foi condenado por não ter chorado no velório da mãe.


Muitas provocações aparecem nessa obra, até onde a lei está para amparar o cidadão? Até que ponto o processo serve para que um sistema judicial cumpra com a justiça de maneira minimamente ética? Que voz o sujeito acusado tem, que limites há para o processo penal? E quando se trata dos direitos dos civis, são de fato direitos, ou depende quem os está reivindicando?


O romance é atual até demais, talvez por isso o leitor dificilmente escape de se sentir um tanto ameaçado por esse lugar de cidadão comum (como nós) que o protagonista ocupa. Ali, parece que a qualquer momento a pouca liberdade que acha ter pode ser-lhe tomada, e não só parece..


Kafka, sempre brilhante.



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Texto por: Wanessa Carvalho

 
 
 

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